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Luto

5 abr 2021

Quando perdemos alguma coisa o psiquismo necessita fazer um trabalho para superar essa perda.

Seja a perda de alguém, de emprego, de relacionamento, de uma condição – por quê não? – Envelhecer é fazer o luto da juventude, por exemplo.

Esse trabalho que engloba um conjunto de ações mentais de levar para dentro de si algo que não existe mais no mundo externo chama-se luto. 

Não podemos pensar em fases ou etapas para a vivência do luto de forma global. Ela é vivida de maneira singular por cada um.

Porém, seguindo o importante (e referencial) texto de Freud (Luto e Melancolia – 1917), podemos arriscar alguns momentos característicos do processo de luto.

Primeiro momento da experiência de luto seria o reconhecimento da perda. Sim, uma perda pode ser tão dolorosa que o indivíduo busca negá-la ou rejeitá-la na tentativa de afastar a angústia e o desamparo que aquela nova condição acarreta.

Frases como: “Isso não está acontecendo!”, “Estou sonhando, quero acordar!” são afirmações simples que, mesmo por um primeiro momento, revelam a dificuldade de lidar com a realidade.

O segundo momento seria o sentimento de culpa atrelado ao sentimento de raiva. Mas como?

O sujeito sente que perdeu algo por não ter sido bom o suficiente. Daí vem o sentimento de não ter sido o melhor marido/esposa, não ter dado o melhor como filho(a), não ter se empenhado o suficiente no trabalho e por aí vai. O que ronda a cabeça é o “O que fiz para merecer isso?”.

Atrelado a isso surge a indignação, a raiva. “Fulano não podia ter me deixado!” ou “O que vou fazer agora sem isso/sem esse alguém?”.

O terceiro momento é um dos mais importantes para definir qual rumo nosso luto irá tomar. Tem a ver com nossa experiência. Como lidei com as perdas que já passei? Será que foram bem elaboradas e vividas a ponto de não se confundirem ou se somarem a esta nova perda?

Por fim: o último momento seria a aceitação.

Aceitação do luto significa renunciar dentro de si a posse do objeto. Ele “pode” ir, não me pertence e não está mais comigo. É a maturidade da renúncia do próprio desejo.

Luto se encerra com essa integração entre o que foi no passado e o que é no presente. Um luto bem elaborado ajuda a buscar novos encontros, novos desejos.

O luto satisfeito termina quando nos sentimos enriquecidos. A melhor elaboração do luto seria aquela que você consegue carregar algo do que foi perdido com você sem estar paralisado. É o que poderíamos chamar, talvez, de “saudades”, “aprendizados”, “lembranças”.

Maria Carolina Passos S. Cassaçola