Seja paixão, seja amor, ambos denunciam a fragilidade que temos em nós: precisamos – de alguma maneira – de um outro.
A paixão está fortemente vinculada com o início do relacionamento, com a novidade. É o momento de alta performance imaginária porque depositamos no objeto de desejo a necessidade inconsciente de encontrar a suposta completude.
Para isso, coloca-se o outro em um lugar pré estabelecido da fantasia, isto é, o apaixonado antecipa ao seu parceiro características ou qualidades que não necessariamente correspondem à realidade, mas que estão a serviço da necessidade de suprir a própria fantasia e desejos.
E nesse caso: estou vendo o outro como ele é ou como meu ego gostaria que fosse?
Por outro lado, o amor é o momento em que a suposta “cegueira” começa a desaparecer. E nesse desembaçamento progressivo, paralelamente surgem as dificuldades com a abertura da porta à realidade.
Por isso, é normal notarmos frustração ao longo do tempo, que nada mais é do que a falta de correspondência entre expectativas e realidade.
O amor implica um amadurecimento da paixão na medida em que ela se desloca da ideia de momento, do “aqui e agora”, do “vale-tudo” e do que “custe o que custar” para a construção e produção de objetivos juntos.
O amor não é cego, a paixão sim. Quando buscamos a “alma gêmea” estamos procurando alguém como nós e o amor implica reconhecer e suportar as diferenças.
Apaixonar-se é importante mas torna-se irreal quando tem como objetivo ser um atalho para o amor. O amor é construção e por isso demanda tempo e disponibilidade emocional.
Algumas pessoas buscam permanecer no estado de apaixonamento e por isso repetem essa experiência várias vezes. Não as veremos em relacionamento longos, seja porque não suportam a ideia do outro não corresponder aos seus ideais, seja porque são “apaixonadas pelo estado de paixão” no qual os pés estão longe dos chão.
Não somos senhores e donos dos nossos amores. Eles são sempre resquícios de amores antigos, infantis e narcísicos na tentativa de elaborações, significâncias e re-vivências das melhores e mais distantes memórias.
Maria Carolina
