De um lado pessoas lutando para entrarem no mercado de trabalho e de outro pessoas que trabalham tanto que transformam a vida em uma empresa: o tempo todo sempre disponíveis a trabalhar.
Sempre conectadas, disponíveis e ocupadas. E se, por hora não estão, se sentem insuficientes e preocupadas. Afinal, facilmente são substituídas.
Não basta trabalhar, ainda há a exigência em parecer que trabalha. Precisamos estar – e nos mostrar – ocupados para sermos validados.
Esta dinâmica produz em nós uma forma muito interessante de organizar a vida: às segundas-feira é proibido festejar, os “happy Hours” são sempre fora do trabalho – como se fosse impossível ter algo “feliz” dentro dele.
Algo que poderia – e deveria ser – proveitoso pode passar a ser um empecilho à satisfação e uma fonte de problemas. E aí sim, o trabalho faria jus a sua origem: do latim tripals, uma ferramenta de tortura.
Nem tortura, nem salvação.
A ideia de que o trabalho resolve os problemas também é falsa. É uma fuga. Ouvimos “Trabalha que passa!”, “Vou mergulhar no trabalho para esquecer”, “Trabalhando eu ganho mais!” ou “Isto é falta do que fazer”.
Esse tipo de pensamento sai caro. Não há como “demitir” pessoas das nossas vidas, fazer “horas extras” com nossas faltas ou “tirar férias” dos nossos problemas.
O trabalho não pode nos dar a satisfação pessoal, pode nos ajudar a consegui-la.
O trabalho não pode preencher nossos vazios, elaborar nossas perdas e somente pode vir a enriquecer os bolsos, jamais existências.
Uma das finalidades de uma pessoa fazer psicanálise, segundo Freud, é que ela possa amar e trabalhar.
Isto significa aprender a conciliar as exigências internas (desejos, vontades e anseios) com a exigências externas (obrigações, responsabilidades). Não é a toa que achar um amor e um trabalho são grande parte dos investimentos humanos.
Maria Carolina
